A década de 1970 presenteou o mundo da Educação com a imensa contribuição de dois gigantes do pensamento sociológico, filosófico e educacional: Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron. Foram dois importantes sociólogos franceses que, juntos, desenvolveram uma das análises mais influentes sobre o papel da educação na reprodução das desigualdades sociais.
Pierre Bourdieu (1930–2002) um dos maiores nomes da sociologia do século XX. Suas ideias centrais giram em torno de conceitos como habitus, campo e capital. Ele via a sociedade como um conjunto de campos, dentre eles o campo educacional, o artístico, o político, nos quais os indivíduos disputam poder e prestígio com base nos diferentes tipos de capital que possuem. No contexto da educação, Bourdieu argumenta que a escola tende a reproduzir a estrutura social existente, legitimando a cultura dominante como se fosse universal e neutra, quando, na verdade, reflete os valores das classes mais favorecidas.
Jean-Claude Passeron (1930–2022) sociólogo e filósofo francês, colaborador próximo de Bourdieu. Ele trabalhou com temas relacionados à educação, cultura e metodologia das ciências sociais. Passeron teve papel crucial na elaboração teórica e metodológica das obras conjuntas com Bourdieu, sobretudo no campo da sociologia da educação.
A principal obra deles é A Reprodução: Elementos para uma teoria do sistema de ensino, publicada no ano de 1970. Nela, defendem que o sistema educacional não é neutro: ele reproduz as desigualdades sociais sob a aparência de meritocracia. A escola valoriza o capital cultural (maneiras de falar, de pensar e agir) das classes dominantes e, por isso, favorece quem já traz de berço essa bagagem. Assim, o sucesso escolar acaba refletindo, mais do que o mérito individual, o ponto de partida social de cada aluno.
Veja a importância da obra desses dois pensadores. Vamos destacar alguns pontos.
1. A sociedade como um conjunto de campos
Bourdieu e Passeron viam cada esfera social (educação, arte, política, economia, etc.) como um campo, um espaço no qual se desenrolam as disputas, segundo regras próprias. Dentre esses campos, destaca-se o campo educacional: nele, professores, alunos, famílias e instituições disputam reconhecimento e poder simbólico.
2. O habitus
O conceito de habitus é fundamental na teoria de Bourdieu e Passeron. O habitus é um sistema de disposições duráveis e incorporadas, que orienta a maneira como as pessoas percebem o mundo, pensam, agem e julgam. Em outras palavras, é o modo de ser e de agir socialmente aprendido; não é algo consciente, mas adquirido ao longo da vida, principalmente pela família e pelo meio social. Na escola, alunos cujos habitus coincidem com os valores da cultura escolar, geralmente da classe média/alta, têm mais facilidade de se adaptar e de parecer naturalmente mais talentosos.
Bourdieu descreve o habitus como “estrutura estruturada e estruturante”: a) Estruturada, porque é formada pelas condições sociais de origem da pessoa: classe, família, cultura, educação; e b) Estruturante, porque orienta como o indivíduo age e reage no mundo, moldando suas escolhas e percepções.
2.1 - Habitus e educação
Na perspectiva de Bourdieu e Passeron, o habitus é fundamental para entender o sucesso (ou o fracasso) escolar. Cada aluno chega à escola com um habitus já socialmente moldado, isto é, com modos de falar, pensar, valorizar o conhecimento e se relacionar com a autoridade que refletem sua origem social. O que faz, então, a escola? A escola, como aparelho ideológico, valoriza o habitus das classes dominantes, que coincide com a cultura escolar, caracterizada pela linguagem culta e formal, pelo gosto da leitura, pelos modos de se expressar, etc.
Assim, quem já traz esse habitus ‘ajustado’ aos padrões da escola tende a ter melhor desempenho e maior reconhecimento, como se o sucesso fosse puro mérito individual, quando na realidade é resultado de uma herança cultural.
Uma criança de classe média, acostumada desde cedo com livros, conversas sobre arte e viagens culturais, tende a compreender com naturalidade os códigos e referências usados na escola. Já uma criança de origem popular, com outro tipo de repertório e de linguagem, pode se sentir deslocada, não por falta de inteligência, mas porque o habitus escolar não corresponde ao seu.
2.2 - Relação do habitus com outros conceitos
O habitus atua dentro de um determinado campo, como o educacional, por exemplo, interagindo com as regras e disputas próprias desse campo. Ele também atua como uma forma de capital incorporado: um modo de carregar cultura dentro de si, sem precisar ostentá-la materialmente. E, na pior de suas acepções, atua intimamente ligado à questão da reprodução social, pois tende a perpetuar as diferenças de origem. Os filhos das classes dominantes herdam um habitus que facilita sua permanência no topo da pirâmide.
3. As diversas formas que assume o Capital
• Capital econômico: bens, dinheiro, patrimônio.
• Capital cultural: conhecimentos, gostos, linguagem, modos de se expressar e de se portar.
• Capital social: rede de contatos e relações úteis.
• Capital simbólico: prestígio, reconhecimento e autoridade social.
Quando falamos de escola, o capital cultural surge como o mais valorizado e, logicamente, quem já o traz de casa, parte na corrida com ampla vantagem.
4. A escola e a ilusão da meritocracia
A escola legitima desigualdades ao tratar o capital cultural da classe dominante como se fosse neutro e universal. O aluno que não tem esse repertório é visto como menos capaz, quando na verdade foi, simplesmente, socializado em outro contexto cultural. Assim, a escola reproduz a estrutura social, utilizando-se do discurso da igualdade de oportunidades.
O conceito de violência simbólica é um dos mais potentes e, talvez, o mais sutil, da sociologia de Bourdieu e Passeron. Ele mostra como o poder pode agir sem precisar se utilizar da força física, atuando apenas por meio da cultura, da linguagem e das ideias. A escola impõe uma cultura dominante, utilizando linguagem, modos de pensar, critérios de avaliação, etc. e faz isso de modo sutil e invisível, sem parecer uma imposição.
Essa forma de dominação é chamada de violência simbólica, pois ocorre de maneira sub- reptícia, através da cultura e da linguagem, passando a ser aceita como legítima pelos próprios dominados.
5.1 - Definição
A violência simbólica é uma forma de dominação invisível, que ocorre quando valores, significados e modos de pensar de um grupo são impostos como se fossem universais, mesmo sendo particulares, ou seja, pertencentes a uma única classe, a dominante.
É violência porque produz submissão e desigualdade, porém, é simbólica, pois é praticada através de símbolos: linguagem, conhecimento, costumes, critérios de julgamento e, não, por meio da força física. E o mais intrigante: as próprias pessoas dominadas acabam aceitando essa imposição como legítima.
5.2 - Como isso acaba acontecendo na escola?
Bourdieu e Passeron, em A Reprodução, mostram que a escola é um dos principais espaços onde essa violência simbólica atua. O sistema educacional valoriza a cultura dominante, pelas maneiras oficiais de falar, de escrever e raciocinar. Essa cultura é apresentada como neutra e como superior, quando na verdade expressa, unicamente, a visão de mundo de uma classe social.
Alunos das classes populares, cujos hábitos e linguagens são diferentes, acabam sendo avaliados e julgados segundo critérios que não lhes pertencem. O resultado é a internalização da inferioridade, passando o aluno a acreditar que fracassou por falta de capacidade, e não por desigualdade de origem. É dessa forma que a escola consegue reproduzir a hierarquia social sem parecer injusta, justamente porque todos acreditam estar jogando um jogo 'justo'.
5.3 - A perversa lógica da legitimação
A violência simbólica só funciona porque há consentimento inconsciente por parte de quem a sofre.
As pessoas não percebem que estão sendo submetidas, pois os símbolos de poder, o diploma, a linguagem culta, o gosto refinado, são aceitos como naturais. O dominado reconhece o poder do dominante e o legitima, acreditando que ele é correto, justo e merecido. Essa legitimação é o que torna a dominação duradoura; ela não é imposta pela força, mas incorporada no modo de ver o mundo, numa cosmovisão tida como universal. Essas práticas constituem formas de violência simbólica, pois naturalizam a exclusão e transformam diferenças sociais em diferenças de mérito.
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